Entrevista a Mahmud Ahmadineyad, Presidente da República do Irão

Augusto Zamora R.
01.Fev.07 :: Outros autores
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O presidente iraniano é um dos líderes mais polémicos e poderosos do mundo. Dirige um país que possui uma das maiores reservas energéticas conhecidas e está no epicentro de conflitos como o do Iraque e o do Afeganistão. O seu confronto com Israel é um recorrente foco de tensão.

EUA e Reino Unido favorecem a insegurança no Iraque

A entrevista teve lugar em Manágua, onde o presidente iraniano, Mahmud Ahmadineyad, chegou no passado sábado [13 de Janeiro], procedente da Venezuela. A visita Ahmadineyad à América Latina, por pouco habitual e pela relevância do Irão na geopolítica mundial, levantou um natural borborinho na região. Ainda que Washington tenha permanecido calado, a direita regional não poupou advertências sobre os riscos da assinatura de acordos e alianças. Encontramo-nos no sexto piso do Hotel Crown Plaza, no seu quarto, que parece um formigueiro humano. As medidas de segurança são discretas. Ahmadineyad demora poucos minutos. De compleição frágil, sorriso fácil e gestos amáveis e suaves. Cumprimenta-nos com cordialidade.

Pergunta: O Próximo Oriente vive uma crise aguda e o Irão desempenha um papel imprescindível. Os Estados Unidos acusam o Irão e a Síria de promover a guerra no Iraque e ameaçaram adoptar medidas contra os dois países. Qual a posição do Irão em relação às acusações dos EUA?

Resposta: Os EUA, que estão a 10.000 quilómetros do Médio Oriente, enviaram as suas tropas para o Iraque e mantêm ocupadas as suas ruas e cidades. Depois, acusa os países vizinhos de intervir no Iraque. O povo iraniano e o povo iraquiano conviveram em paz durante centenas de anos. Milhões de pessoas circulam entre os nossos dois países, e existem muitos vínculos familiares e de parentesco entre ambos povos.

Creio ser chegado o momento de as grandes potências mudarem as suas percepções sobre os assuntos internacionais e sobre a região. Não havia armas de destruição massiva, nem Sadam está no poder. Porque continuam os britânicos e os estadunidenses no Iraque? Nós chegámos à conclusão de que as armas de destruição massiva e o Sadam eram simples pretextos para atacar o Iraque. O problema do Iraque é a presença de tropas estrangeiras. O Irão apoia a independência e o desenvolvimento do Iraque, Acreditamos que a insegurança é apenas um pretexto dos Estados Unidos e do Reino Unido para permanecerem no Iraque. A nosso ver, eles favorecem a insegurança no Iraque.

No Irão temos uma fábula: um homem, com um rosto muito desagradável, abraça uma criança e esta começa a chorar. O homem de rosto desagradável afugenta todos os que se aproximam da criança. De repente um homem judicioso e diz-lhe: “ por favor, deixe esse menino, a causa do seu medo e do seu choro é o senhor, não as outras pessoas”.

Pergunta: A execução de Sadam Hussein fomentará ainda mais a divisão entre sunitas e xiitas?

Resposta: Os iraquianos são um povo, uma nação. Durante centenas de anos as diferentes etnias, xiitas, sunitas, curdos, conviveram em paz, casaram entre si. Só depois da intervenção britânica e estadunidense aparece no Iraque um problema chamado xiitismo e sunismo. Os EUA e o Reino Unido tentam semear divergências e separar etnias religiosas com o objectivo de dominar o Iraque. Sadam Hussein não era sunita nem xiita. Não era muçulmano. Sadam era um ditador manejado por britânicos e estadunidenses. Pelo menos durante 10 anos esteve sob a protecção dos EUA e do Reino Unido. Quando atacava os povos iraquiano e iraniano, eles aplaudiam Sadam. Hoje estão zangados porque não têm ninguém que lhes obedeça. Acreditaram que, tirando um personagem tão odiado, podiam permanecer na região e ganhar a estima dos povos. O resultado foi totalmente ao contrário do esperado, e os britânicos e os estadunidenses são hoje odiados por todos os povos da região.

Pergunta: O Sunday Times publicou que Israel podia estar a preparar um ataque, inclusive atómico, contra instalações nucleares iranianas. Que aconteceria nesse caso? Qual seria a resposta do Irão?

Resposta: O regime sionista é um regime ilegítimo. Criou-se essencialmente para ameaçar outros povos. A existência desse regime baseia-se na ameaça a outros Estados. Todos os povos do Médio Oriente odeiam o regime sionista. É um regime imposto, ditatorial e totalitário na região. Esse regime está interessado em atacar o povo iraniano. Têm muitos sonhos, mas não são omnipotentes. São impotentes, para materializar os seus sonhos. Eles conhecem bem a força do povo iraniano. Creio que nunca terão a ousadia de nos atacar. Nem eles nem os seus amos. Não farão tamanho disparate.

Pergunta: Foi publicado que o senhor advoga a destruição de Israel.

Resposta: A minha opinião é muito clara. Eu fiz duas perguntas e apresentei duas propostas. A minha primeira pergunta é a seguinte: se o Holocausto foi uma realidade, se existiu, porque não há uma informação clara? Porque não permitem investigar esse assunto? Vemos que qualquer investigador que queira uma investigação é condenado. Não permitem formular perguntas sobre o assunto. Se realmente existiu o Holocausto, onde ocorreu? Que culpa tem o povo palestino? Sob o pretexto do Holocausto impuseram, durante seis décadas, um regime ao povo palestino. Se o Holocausto ocorreu noutro lugar, que é que isso tem a ver com a Palestina e o povo palestino? Cremos que impor esse regime ao povo palestino é a maior injustiça que existiu na História da Humanidade. São já 60 anos o tempo que os palestinos levam refugiados e expulsos do seu território. Todos os dias há uma matança nas ruas da Palestina.

Também formulámos propostas claras aos países ocidentais que, por interesses económicos e políticos, impuseram o regime sionista aos povos da região. A primeira proposta é: se fostes vós quem impôs este regime ao povo palestino, deveis ser vós os quem o deve tirar. Britânicos e estadunidenses têm que o levar.

Se não aceitam a primeira proposta, vamos à segunda, que é realizar um referendo popular, democrático, em que participe todo o povo palestino, todos os partidos, com cristãos, judeus e muçulmanos. A autodeterminação é uma coisa muito clara na Carta das Nações Unidas. Permitamos ao povo palestino que seja ele próprio a decidir o seu destino. Essa é a nossa opinião e postura, e acreditamos que se trata de algo legal e lógico.

Nós não queremos a guerra, não queremos conflitos, não queremos o ódio. O que pretendemos é resolver o problema criado pelo regime sionista, que é a origem do ódio. Falam de um Holocausto e sob esse pretexto criaram o regime sionista. Há guerras e problemas há 60 anos. Se resolvermos a causa do problema, deixa de haver problema. Pergunto-lhe: onde está a União Soviética? Desapareceu.

Pergunta: O relatório Baker diz que o Irão é imprescindível para alcançar a paz no Iraque. Se pedissem o apoio do seu país para pacificar o Iraque, estaria disposto a colaborar plenamente? Que pediria em contrapartida?

Resposta: Nós aspiramos à paz em benefício de todos, porque somos os primeiros prejudicados pela insegurança que há no Iraque. Temos uma fronteira comum com mais de 1.000 quilómetros. Há terroristas que, com protecção britânica, se infiltraram pelas nossas fronteiras e colocaram bombas. Nós pedimos a Deus paz e segurança para o Iraque mas, com toda a clareza, pensamos que nem o Reino Unido nem os EUA querem a paz.

Estão contra um governo popular no Iraque. Querem debilitar um Governo popular, legítimo. Se eles mudassem de atitude tudo seria diferente. No Irão temos estado sempre do lado do povo iraquiano e do lado do novo governo iraquiano. Somos dois Estados, dois povos e dois governos muito unidos. Estamos dispostos a apoiar qualquer pedido de ajuda feita pelo Governo iraquiano.

Pergunta: O Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução impondo sanções ao Irão pelo dossier nuclear, com o voto da Rússia e da China, considerados aliados do Irão. Há uma crise nas relações com a Rússia e a China?

Resposta: Quer os EUA como o Reino Unido estão contra o progresso do povo iraniano. Cada progresso nosso encontra a oposição destes países. Sempre que há eleições gerais no Irão eles tentam que o povo iraniano não acorra às urnas. Dizem que estão contra as armas nucleares, mas toda a gente sabe que o regime sionista possui armas atómicas e os EUA e o Reino Unido estão contentes com isso. O Irão colaborou generosamente com a Agência Internacional de Energia Atómica. Respeitámos as normas em vigor.

O Conselho de Segurança está encarregado de defender os direitos dos povos, mas os EUA e o Reino Unido converteram o Conselho de Segurança num instrumento ao seu serviço. Os actos dos britânicos e dos estadunidenses prejudicaram o povo iraniano e desacreditaram o Conselho de Segurança. Isso está de acordo com a maneira de ser dos Estados Unidos e do Reino Unido, que estão dispostos a prejudicar outros povos em benefício próprio. O descrédito e o desprestígio da ONU não lhes servem de nada. Em qualquer caso, influi pouco na nossa posição política. Pensamos que esta situação colocará os EUA e o Reino Unido numa posição mais débil. Estão cada vez mais isolados no mundo.

Pergunta: A sua volta pela América Latina demonstra que um grande interesse do Irão em estreitar relações com os países da região?

Resposta: Estamos interessados em aprofundar as relações com todos os governos e povos do mundo, sobretudo com os governos progressistas, com ânsia de justiça social. Hoje em dia os povos latino-americanos estão a reivindicar a sua independência e a lutar por se livrarem da arrogância do imperialismo. É natural que estejamos com estes povos e as suas aspirações. Temos excelentes relações com a Venezuela. Com a Nicarágua tivemos amplas relações. O movimento progressista do povo nicaraguense coincidiu com a revolução iraniana de 1979. Há portanto um sentimento de proximidade e amizade entre os nossos dois países.

Pergunta: Qual seria a sua mensagem à população nicaraguense?

Resposta: O povo nicaraguense é um povo muito sábio, monoteísta e com sentido de justiça social. Sofreu durante muitos anos o domínio e a hegemonia estrangeira. Nós queremos dizer ao povo nicaraguense:” Estamos convosco” Estamos convencidos de que com apoio mútuo podemos reconstruir os nossos dois países. Vim expressar o meu interesse e o meu apoio à Nicarágua.

Tradução de José Paulo Gascão

O original foi publicado em www.rebelión.org de 18 de Janeiro de 2007